27 de março de 2022

|

por: mokayama

|

Categorias: matérias

Dois rios

Dois rios interrompidos… Duas forças da natureza que em maior ou menor grau jogaram a roleta russa com as casualidades do roqueenrou… Representam a fuga da rota de choque que é o andar no fio da navalha em serem forças criativas e estarem a serviço da máquina avassaladora do show biz…
A morte de John Entwistle , na minha vida foi quase se eu tivesse perdido um tio distante que significou muito para mim.
Lembro daquela tarde, meu pai me ligando para avisar sobre o John enquanto falava na porta do Emt antigo, com o Nelson do Golpe de Estado, sobre a ida do John…( Na época tocava com ele numa encarnação do Fickle Pickle).
Tenho até hoje uma relação passional com tudo relacionado ao The Who, e a ida do John possui uma simbologia irônica, que reside na própria fragilidade que o baixista ( o maior de todos !)encontrava se, fruto dos excessos abraçados com força por ele; hipertenso, cardiopata, surdo dos dois ouvidos , financeiramente falido ( sua bancarrota foi a causa da tour)e mesmo assim entregue as casualidades do rock ao se deitar com uma stripper, movido por uma carreira de pó e Viagra na sua última noite no planeta…
O Who bravamente subiu no palco dois dias depois com o Pino Paladino assumindo os graves e evitando o caos para todos, sendo que o principal impecilio para o cancelamento da tour a anulação do pagamento do prêmio sinistro( que cobriria os prejuízos) em função da circunstância da morte de John. Um dos maiores manifestos de força e coragem do Pete e do Roger naquele show…
Sete anos separam a idade da ida de John( 57) e Taylor(50) :existe um abismo enorme no contexto da ida deles.
Ao contrário da decadência física do baixista do The Who, Taylor , apesar da meia idade, tinha perfil atlético ,de um garoto bonito e bem resolvido com a vida ; virtuose, talentoso ao extremo , fiel escudeiro da principal voz no rock moderno , aquele que soube virar coadjuvante de lenda para lenda..Mr. David Grohl!.
Apesar de adorar passar os riffs com alunos e curtir tocar em pubs as músicas da banda, assumo que minha interface emocional está muito mais voltada para os canones do rock, jazz, fusion, música étnica….( Coisa de veio…kkkk)…para mim ( tirando honrosas exceções como o Living Colour ,Alice in Chains e Radiohead) o rock tem se tornado uma paródia asséptica..
Talvez um sorriso de família doriana que inflingimos em nós mesmos na mentira perene do prozac digital…
Um espelho de falsa felicidade que esconde toda uma lama e sujeira que existe no show biz
Longe de julgamento moral , mas não se acha dez tipos de substâncias ( do thc, antidepressivos , heroína, opióides,etc) em xixi de gente feliz…
A pressão da performance e saúde mental dos músicos é um puta tabu, onde o sorriso doriana, esconde a neurose da eterna exposição perfeita.
E isto não é predicado do rock, minha mãe se dedicou a área didática no piano, tornando se exímia professora, por não curtir a pressão de performance ( vomitava antes de tocar na igreja ou concertos).
Cansei de recusar, na minha época de envolvimento com música erudita ( solo.e câmara) oferecimentos de beta bloqueadores e bombas mil( assumo e bato no peito minha caretice no sagrado da performance musical)
O fato é que a realidade pós moderna de rockstars, influencers,Youtubers, e outros comunicadores envolve uma pressa insana de exposições num pleno tanque de tubarões…
Me vem a mente a ida de Chorão e Champignon…Deus os acolha…
O Foo Figthers cancelou sem pestanejar os shows seguintes….mera conjectura minha mas talvez a legislação de seguro esteja mais adaptada a estes casos, o que chama a atenção de como nos dias atuais o escaralhamento e autos indulgência devem estar a todo vapor nos bastidores da máquina do show biz…
Minha solidariedade vai para a esposa e filhos do Taylor, estes sim foram privados do mais importante, assim como o próprio baterista o foi…
O resto
Luz ,fumaça e espelhos …
Business as usual
Segue o baile…

Márcio Okayama

PS… Não sou no cara mais religioso ,mas acho aqui pertinente está reflexão…

Marcos 8:36

36Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?